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Volume XXXI, Número 2, Outono 2006 – Etnopsiquiatria
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Apresentação

Yves Lecomte, Sophie Jama, Gisèle Legault. A etnopsiquiatria, p. 7


Editorial

Yolande Govindama. Premissas de um debate em curso: Etnopsiquiatria ou etnopsicanálise?

Dossiê : Etnopsiquiatria

Jean-Bernard Pocreau, Lucienne Martins Borges, Reconhecer a diferença: o desafio da etnopsiquiatria p. 43
Caroline Pedneault, Gisèle Ammara, Tinh Nhan Luong, Selim Rashed, Clínica transcultural na clínica de Pedíatrica do Hospital Maisonneuve-Rosemont, de filiação em mestiçagem p. 57
Rébecca Duvillié, Os filhos da República francesa também são imigrantes: a escola, um laboratório etnopsiquiátrico p.73
Claire Mestre, O sonho e os mortos p.97
Danièle Pierre, Elaboração secundária do sonho: um conceito importante para o encontro transcultural p.109
Sylvaine De Plaen, Trabalhar com jovens originários da imigração: em direção a uma prática pedopsiquiátrica culturalmente sensível p. 123
Cécile Rousseau, Marie-France Gauthier, Maryse Benoît, Louise Lacroix, Alejandro Moran, Musuk Viger Rojas. Dominique Bourassa, Da representação de identidades à transformação de realidades solidárias: um programa de ateliês de expressão teatral para adolescentes imigrantes e refugiados p.135
Denise Noël, Para uma resposta transcultural em matéria de saúde mental autóctone p. 153
Frantz Raphaël, Gravidez fora do casamento nas famílias haitianas p.165


Témoignage :
Carlo Sterlin, Etnopsiquiatra no Quebec: balanço e perspectivas de um importante testemunho ator p.179


MOSAÏQUES :
Julio Arboleda-Flórez, David N. Weisstub, Psiquiatria médico-legal. Envergadura, responsabilidades éticas e conflito de valores p. 193
Marc Corbière, Alain Lesage, Kathe Villeneuve, Céline Mercier, Continuação no trabalho para pessoas que sofrem de uma doença mental p. 215
Dossier : Impasse thérapeutique

Wilfrid Reid, O impasse em psicoterapia dinâmica ou pertinência dos paradoxos p.293
Suzanne Lamarre, Criar contextos de cooperação para sair de impasses terapêuticos p.309
Taïeb Ferradji, Laetitia Bouche-Florin, Kouakou Kouassi, Yoram Mouchenik, Félicia Heidenreich, Katherine Levy, A. Trepied, Salim Mehallel, Marie-Rose Moro, A questão do impasse terapêutico em clínica transcultural p.329
 

A etnopsiquiatria
Yves Lecomte, Sophie Jama, Gisèle Legault.

Esta apresentação é uma visão geral da literatura sobre os dois princi­pais modelos de intervenção em etnopsiquiatria: a psiquiatria trans­cultural e a etnopsicanálise. Depois de distinguir conceitualmente estas duas abordagens, a apresentação descreve o conceito central na psiquiatria transcultural, que é a competência cultural. Em seguida, ela descreve os principais parâmetros da intervenção etnopsicanalítica: fundamentos, problemáticas de consulta, funcionamento, papel do refe­rente, do terapeuta principal e dos co-terapeutas, do tradutor e do media­dor, e a finalidade desta abordagem.



Reconhecer a diferença: o desafio da etnopsiquiatria
Jean-Bernard Pocreau, Lucienne Martins Borges

Reconhecer a diferença do Outro é o fundamento da legitimidade da etnopsiquiatria, que é necessariamente múltipla, variante, e portadora de nuances e de diferenças. É a partir de sua prática clínica no Serviço de Auxílio Psicológico Especializado aos Imigrantes e Refugiados (SAPSIR) que os autores propõem um outro olhar sobre esta disciplina, levando em consideração, obviamente, a dimensão cultural e psíquica da pessoa; eles se apóiam também sobre os universos existenciais e huma­nistas como a necessidade de sentido, de continuidade de si mesmo e de coerência, assim como sobre as diversas dimensões da identidade. O dispositivo clínico proposto, de acordo com os princípios da etno­psiquiatria, articula-se em três eixos: trabalho sobre as relações, trabalho sobre as diferentes dimensões identitárias, trabalho sobre a coerência e o sentido das situações vivenciadas. Esta abordagem permite acom­panhar e facilitar as elaborações essenciais implicadas no trabalho psí­quico dos refugiados e das pessoas que foram expostas a situações extremas, como a tortura.


Clínica transcultural na clínica de Pedíatrica do Hospital Maisonneuve-Rosemont, de filiação em mestiçagem
Caroline Pedneault, Gisèle Ammara, Tinh Nhan Luong, Selim Rashed

A Clínica Pediátrica Transcultural do Hospital Maisonneuve-Rosemont tem a particularidade de ser implantada em um serviço de pediatria geral. Neste contexto, para a família, é a criança que é porta­dora de sintomas e esta clínica permite tratá-la em sua globalidade corporal, afetiva e cultural. Já que os conceitos de filiação e de afiliação estão entre os mais utilizados pela equipe da clínica durante as intervenções, os autores tentam aprofundá-los e ilustrá-los por dois casos clínicos. Sua análise levanta uma questão importante à qual eles tentam responder: será que a resiliência é possível em contexto imi­gratório nas crianças que sofrem de problemas de filiação e de afiliação?



Os filhos da República francesa também são imigrantes: a escola, um laboratório etnopsiquiátrico
Rébecca Duvillié

A autora descreve a consulta em etnopsicologia da escola Charles Hermite, situada na 18ª regional de Paris. Formada em etnopsiquiatria por Nathan, a autora abriu este primeiro serviço de consulta, cujos objetivos são promover uma abordagem etnopsiquiátrica na área da psicologia escolar, da psicoterapia e da pedagogia, e apoiar uma reflexão a partir de um questionamento dialético: como levar em consideração, ao mesmo tempo, as especificidades culturais e lingüísticas que consti­tuem o universo simbólico de uma criança imigrante e o universo codi­ficado demais da escola de tipo Jules Ferry, e, finalmente, como colocar em prática um dispositivo voltado para as dificuldades de uma popu­lação específica, sem desencadear processos de estigmatização, freqüen­temente presentes na escola.



O sonho e os mortos
Claire Mestre

Neste artigo, o autor aborda a questão do sonho e dos mortos como ferramenta essencial da psicoterapia transcultural e como a visão onírica dos mortos e sua interpretação constituem um ponto importante do trabalho terapêutico transcultural. A partir de um exemplo clínico, o autor demonstra como a analogia espacial entre o sonho e o mundo dos mortos permitiu a um paciente reconstruir um espaço psíquico grave­mente comprometido pelos traumatismos suportados.



Elaboração secundária do sonho: um conceito importante para o encontro transcultural
Danièle Pierre

A elaboração secundária do sonho foi, durante muito tempo, considerada um conceito sem importância na psicanálise. Entretanto, é ela que integra, no trabalho do sonho, os elementos significativos da “visão do mundo” consciente do sonhador. Desta forma, ela permite entrar em contato, de maneira muito direta, com o inconsciente do sonhador, qualquer que seja sua origem cultural. Três breves evocações clínicas ilustram a utilização deste conceito teórico no encontro trans­cultural.



Trabalhar com jovens originários da imigração: em direção a uma prática pedopsiquiátrica culturalmente sensível
Sylvaine De Plaen

O trabalho clínico realizado com jovens vindos de culturas mino­ritárias ou mestiças, nos obriga a refletir sobre os modos de integração das dimensões socioculturais nas práticas dos tratamentos. Para isso, a etnopsiquiatria constitui uma ferramenta privilegiada para refletir sobre as práticas clínicas institucionais, principalmente no que diz respeito às situações complexas que requerem abordagens multimodais. Este texto retoma alguns conceitos situados no âmago do pensamento e da prática etnopsiquiátrica, a saber, os relativos à conti­nuidade, à multiplicidade e à articulação dos espaços. O termo “dispo­si­tivo de geometria variável”, elaborado por Moro ressalta, princi­pal­mente, a importância da mobilidade e do dinamismo do quadro de trabalho nos tratamentos clí­nicos transculturais. A respeito da apresen­tação de uma situação clínica complexa, propomos um modelo de integração da cultura em um contexto clínico externo de pedo­psiquiatria. Propomos o termo “pedopsiquiatria culturalmente sensível” para evocar as adaptações do quadro etnopsiquiátrico em nosso trabalho com jovens originários da imigração.



Da representação de identidades à transformação de realidades solidárias: um programa de ateliês de expressão teatral para adolescentes imigrantes e refugiados
Cécile Rousseau, Marie-France Gauthier, Maryse Benoît, Louise Lacroix, Alejandro Moran, Musuk Viger Rojas. Dominique Bourassa

A imigração na adolescência é especialmente delicada, por causa do fardo conjugado que representa, neste ponto da vida, a integração das múltiplas perdas associadas à imigração e à adaptação ao estatuto de jovem adulto. O programa de ateliês de expressão teatral visa facilitar a adaptação dos adolescentes imigrantes e refugiados ao seu novo ambiente, a partir de um trabalho criativo a respeito das preocupações identitárias relacionadas à imigração e a um estatuto de minoria. Estes ateliês conjugam uma abordagem inspirada no teatro playback, que permite uma representação da vivência pessoal, e no teatro fórum de Boal, que ressalta a transformação coletiva da experiência. Os resultados de uma avaliação qualitativa dos ateliês de expressão teatral sugerem que estes continuam sendo um lugar de expressão onde os participantes sentem-se em segurança e apoiados pela equipe e pelo caráter ritual da representação teatral. Os ateliês permitem representar a multiplicidade dos valores e das referências internas e externas do adolescente e renegociá-los sem dicotomizar o “eles” e o “nós”, falando sobre questões de justiça social que são colocadas à coletividade. Os ateliês favorecem também a elaboração das transições da adolescência permitindo a evocação das perdas da imigração e a passagem para uma identidade híbrida.



Para uma resposta transcultural em matéria de saúde mental autóctone
Denise Noël

Este artigo examina como a questão da intervenção clínica junto aos autóctones é colocada nos serviços de psiquiatria transculturais em Montreal. O Serviço de Consulta Cultural do Hospital Judeu de Montreal, fundado pelo Dr. Kirmayer e a Clínica de pedopsiquiatria transcultural do Hospital de Montreal para Crianças criada pelo Dr. Rousseau são espaços de tratamento ainda muito jovens. O mandato destes serviços é responder às exigências da diversidade cultural em Montreal. O autor reflete sobre o lugar e a resposta dada por estes dois serviços à demanda de uma minoria que não é como as outras, os autóctones.



Gravidez fora do casamento nas famílias haitianas
Frantz Raphaël

A gravidez precoce nas jovens adolescentes haitianas de Montreal leva a situações de crise que atingem várias famílias, além de interessar e implicar intervenientes de várias disciplinas. O assunto, abordado em um contexto transcultural, diz respeito ao biculturalismo haitiano, tanto no Haiti quanto em terra estrangeira. Neste artigo, o autor aborda particularmente a situação dos haitianos no contexto quebequense. A análise da atitude dos pais dos dois grupos culturais, ocidentalizado e crioulo, constitui uma luz mediadora nas relações de ajuda ou de intervenção psicoterapêutica. Na comunidade haitiana, os problemas de identidade cultural por um lado e a falta de integração com a família, de outro, são a base dos conflitos entre pais e filhos. O autor conclui com propostas que objetivam melhorar a eficácia das intervenções nestas famílias em seu processo de adaptação imigratória.

Etnopsiquiatra no Quebec: balanço e perspectivas de um importante testemunho ator
Carlo Sterlin

Esta “entrevista” com C. Sterlin, fundador da clínica transcultural do Hospital Jean-Talon (em Montreal) determina, em uma perspectiva histórica, o desenvolvimento da abordagem intercultural em clínica no Quebec, propõe uma classificação clínico-política das abordagens inter­culturais em psiquiatria e descreve o contexto no qual se desenvolveu o “Projeto Jean-Talon”. Esta entrevista indica, além do fracasso deste projeto, como o Quebec — devido à sua posição privilegiada — poderia contribuir para o desenvolvimento futuro da etnopsiquiatria.

Psiquiatria médico-legal. Envergadura, responsabilidades éticas e conflito de valores
Julio Arboleda-Flórez, David N. Weisstub

Quando uma especialidade sobrepõe vários sistemas, não se pode tratar de ética sem discutir valores e regras de decisão que estão na base de cada um destes sistemas. Através de suas múltiplas associações, a psiquiatria médico-legal é um arquétipo de tal especialidade; ela opera dentro de um conjunto de valores que podem parecer antitéticos, ou mesmo irreconciliáveis com respeito a outros aspectos da psiquiatria. A ação da psiquiatria médico-legal tomou uma envergadura considerável, e seus especialistas devem adotar outras visões do mundo e aplicar regras de decisão que podem atingir os valores clássicos e as considerações éticas da medicina (Weisstub, 1980). Depois de um breve histórico, os autores passam em revista a extensão da ação da psiquiatria médico-legal, vista como fundamento de sua definição. Os conceitos, temas e controvérsias, com respeito à ética desta especialidade, são examinados à luz das questões levantadas na prática atual.

Continuação no trabalho para pessoas que sofrem de uma doença mental
Marc Corbière, Alain Lesage, Kathe Villeneuve, Céline Mercier

A inserção no trabalho, para pessoas que sofrem de uma doença mental, mostra-se complexa e difícil. Para as que trabalham, a conti­nuação no emprego é de curta duração. Este artigo visa identificar determinantes pessoais da continuação no trabalho para pessoas que sofrem de uma doença mental e inscritas em um programa de reinserção no trabalho. Das 105 pessoas que trabalham, durante o acompan­hamento de nove meses após a inscrição em um programa, cerca de 50% mantêm sua primeira atividade de trabalho. Os resultados de análises de sobrevivência revelam que, segundo o indicador de continuação no emprego observado (primeiro ou último emprego obtido), as variáveis que aparecem como significativas podem estar ligadas aos aspectos sócio-demográficos (auxílio financeiro recebido), ao trabalho (duração da ausência no mercado de trabalho, tipo de emprego obtido), aos aspectos cognitivos (funções executivas) e clínicos (sintomas para­nóides). Concluindo, os autores sugerem, não apenas considerar as variáveis inerentes à pessoa que sofre de uma doença mental para predizer a continuação no emprego, mas também avaliar, de maneira mais sistemática, seu meio de trabalho.

O impasse em psicoterapia dinâmica ou pertinência dos paradoxos
Wilfrid Reid

O autor refere-se aqui ao adágio que diz que é melhor prevenir que remediar. Neste contexto, ele descreve um certo número de armadilhas que são inerentes ao processo de psicoterapia psicodinâmica. Para melhor tentar evitá-las, estas armadilhas são apresentadas seguindo o desenrolar cronológico da psicoterapia. Assim, o autor apresenta um novo paradigma do método analítico, o paradigma da transicionalidade. Esta reflexão pretende ressaltar o grande valor heurístico do conceito de paradoxo.

Criar contextos de cooperação para sair de impasses terapêuticos
Suzanne Lamarre

Este artigo visa a: 1) descrever a gestão dos problemas de saúde mental de acordo com dois modelos opostos e que se diferenciam em casos de tensões, o modelo da cooperação e o modelo tradicional médico; 2) ilustrar através de exemplos clínicos estas diferenças essen­ciais; e 3) propor algumas reflexões sobre os obstáculos à cooperação por causa das atitudes protecionistas do modelo tradicional médico, que acentua-se durante as crises. Deter-se aos tratamentos das patologias ignorando a natureza dos contextos relacionais, como pretende o modelo tradicional, pode conduzir os atores a impasses terapêuticos cujo mais freqüente é o da psiquiatrização. A autora propõe um modelo de intervenção que ela chama de 4Rs para instalar um contexto de cooperação. Criar contextos de cooperação para sair de impasses terapêuticos.

A questão do impasse terapêutico em clínica transcultural
Taïeb Ferradji, Laetitia Bouche-Florin, Kouakou Kouassi, Yoram Mouchenik, Félicia Heidenreich, Katherine Levy, A. Trepied, Salim Mehallel, Marie-Rose Moro

A consulta transcultural do hospital Avicenne é freqüentemente um local para onde convergem pacientes que têm percursos longos, dolorosos, carregados de traumatismos e de rupturas e das equipes em dificuldade diante da complexidade e do peso de certas situações. Transtorno e sentimento de impasse são duplamente vivenciados com um risco acompanhado de errância terapêutica, ou mesmo de incom­preensão e de equívocos quando não de rejeição. O dispositivo transcultural pela mediatização da interação paciente-terapeuta permite a elaboração de um meio-termo que preserva a posição do terapeuta, estando, ao mesmo tempo, coerente com as representações culturais do paciente