A etnopsiquiatria
Yves Lecomte, Sophie Jama, Gisèle Legault.
Esta
apresentação é uma visão geral da literatura sobre os dois principais modelos
de intervenção em etnopsiquiatria: a psiquiatria transcultural e a
etnopsicanálise. Depois de distinguir conceitualmente estas duas abordagens, a
apresentação descreve o conceito central na psiquiatria transcultural, que é a
competência cultural. Em seguida, ela descreve os principais parâmetros da
intervenção etnopsicanalítica: fundamentos, problemáticas de consulta,
funcionamento, papel do referente, do terapeuta principal e dos co-terapeutas,
do tradutor e do mediador, e a finalidade desta abordagem.
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Reconhecer a
diferença: o desafio da etnopsiquiatria
Jean-Bernard Pocreau, Lucienne Martins Borges
Reconhecer
a diferença do Outro é o fundamento da legitimidade da etnopsiquiatria,
que é
necessariamente múltipla, variante, e portadora de nuances e de diferenças. É a
partir de sua prática clínica no Serviço de Auxílio
Psicológico Especializado aos Imigrantes e Refugiados (SAPSIR) que os
autores propõem um outro olhar sobre esta disciplina, levando em consideração,
obviamente, a dimensão cultural e psíquica da pessoa; eles se apóiam
também sobre os universos existenciais e humanistas como a necessidade
de sentido, de continuidade de si mesmo e de coerência, assim como sobre
as diversas dimensões da identidade. O dispositivo clínico proposto,
de acordo com os princípios da etnopsiquiatria, articula-se em três
eixos: trabalho sobre as relações, trabalho sobre as diferentes
dimensões identitárias, trabalho sobre a coerência e o sentido
das situações vivenciadas. Esta abordagem permite acompanhar
e facilitar as elaborações essenciais implicadas no trabalho psíquico
dos refugiados e das pessoas que foram expostas a situações extremas,
como a tortura.
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Clínica transcultural na clínica de Pedíatrica
do Hospital Maisonneuve-Rosemont, de filiação em mestiçagem
Caroline Pedneault, Gisèle Ammara, Tinh Nhan Luong, Selim Rashed
A
Clínica Pediátrica Transcultural do Hospital Maisonneuve-Rosemont
tem a particularidade de ser implantada em um serviço de pediatria geral.
Neste contexto, para a família, é a criança que é portadora
de sintomas e esta clínica permite tratá-la em sua globalidade
corporal, afetiva e cultural. Já
que os conceitos de filiação e de afiliação estão
entre os mais utilizados pela equipe da clínica durante as intervenções,
os autores tentam aprofundá-los e ilustrá-los por dois casos clínicos.
Sua análise levanta uma questão importante
à qual eles tentam responder: será que a resiliência é possível
em contexto imigratório nas crianças que sofrem de problemas
de filiação e de afiliação?
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Os filhos da
República francesa também são imigrantes: a escola,
um laboratório etnopsiquiátrico
Rébecca Duvillié
A
autora descreve a consulta em etnopsicologia da escola Charles Hermite, situada
na 18ª regional de Paris. Formada em etnopsiquiatria por Nathan, a autora
abriu este primeiro serviço de consulta, cujos objetivos são promover
uma abordagem etnopsiquiátrica na área da psicologia escolar, da
psicoterapia e da pedagogia, e apoiar uma reflexão a partir de um questionamento
dialético: como levar em consideração, ao mesmo tempo, as
especificidades culturais e lingüísticas que constituem o universo
simbólico de uma criança imigrante e o universo codificado
demais da escola de tipo Jules Ferry, e, finalmente, como colocar em prática
um dispositivo voltado para as dificuldades de uma população
específica, sem desencadear processos de estigmatização,
freqüentemente presentes na escola.
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O sonho e os mortos Claire Mestre
Neste
artigo, o autor aborda a questão do sonho e dos mortos como ferramenta
essencial da psicoterapia transcultural e como a visão onírica
dos mortos e sua interpretação constituem um ponto importante do
trabalho terapêutico transcultural. A partir de um exemplo clínico,
o autor demonstra como a analogia espacial entre o sonho e o mundo dos mortos
permitiu a um paciente reconstruir um espaço psíquico gravemente
comprometido pelos traumatismos suportados.
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A
elaboração secundária do sonho foi, durante muito tempo,
considerada um conceito sem importância na psicanálise. Entretanto, é ela
que integra, no trabalho do sonho, os elementos significativos da “visão
do mundo” consciente do sonhador. Desta forma, ela permite entrar em contato,
de maneira muito direta, com o inconsciente do sonhador, qualquer que seja sua
origem cultural. Três breves evocações clínicas ilustram
a utilização deste conceito teórico no encontro transcultural.
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Trabalhar com
jovens originários da imigração: em direção
a uma prática pedopsiquiátrica culturalmente sensível Sylvaine De Plaen
O
trabalho clínico realizado com jovens vindos de culturas minoritárias
ou mestiças, nos obriga a refletir sobre os modos de integração
das dimensões socioculturais nas práticas dos tratamentos. Para
isso, a etnopsiquiatria constitui uma ferramenta privilegiada para refletir sobre
as práticas clínicas institucionais, principalmente no que diz
respeito às situações complexas que requerem abordagens
multimodais. Este texto retoma alguns conceitos situados no
âmago do pensamento e da prática etnopsiquiátrica, a saber,
os relativos à
continuidade, à multiplicidade e à articulação
dos espaços. O termo “dispositivo de geometria variável”,
elaborado por Moro ressalta, principalmente, a importância da
mobilidade e do dinamismo do quadro de trabalho nos tratamentos clínicos
transculturais. A respeito da apresentação de uma situação
clínica complexa, propomos um modelo de integração da cultura
em um contexto clínico externo de pedopsiquiatria. Propomos o termo “pedopsiquiatria
culturalmente sensível” para evocar as adaptações
do quadro etnopsiquiátrico em nosso trabalho com jovens originários
da imigração.
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Da representação
de identidades à transformação de realidades solidárias:
um programa de ateliês de expressão teatral para adolescentes
imigrantes e refugiados Cécile Rousseau, Marie-France Gauthier, Maryse Benoît, Louise Lacroix, Alejandro Moran, Musuk Viger Rojas. Dominique Bourassa
A
imigração na adolescência é especialmente delicada,
por causa do fardo conjugado que representa, neste ponto da vida, a integração
das múltiplas perdas associadas à imigração e à adaptação
ao estatuto de jovem adulto. O programa de ateliês de expressão
teatral visa facilitar a adaptação dos adolescentes imigrantes
e refugiados ao seu novo ambiente, a partir de um trabalho criativo a respeito
das preocupações identitárias relacionadas à
imigração e a um estatuto de minoria. Estes ateliês conjugam
uma abordagem inspirada no teatro playback, que permite uma representação
da vivência pessoal, e no teatro fórum de Boal, que ressalta a transformação
coletiva da experiência. Os resultados de uma avaliação qualitativa
dos ateliês de expressão teatral sugerem que estes continuam sendo
um lugar de expressão onde os participantes sentem-se em segurança
e apoiados pela equipe e pelo caráter ritual da representação
teatral. Os ateliês permitem representar a multiplicidade dos valores e
das referências internas e externas do adolescente e renegociá-los
sem dicotomizar o “eles” e o “nós”, falando sobre
questões de justiça social que são colocadas à coletividade.
Os ateliês favorecem também a elaboração das transições
da adolescência permitindo a evocação das perdas da imigração
e a passagem para uma identidade híbrida.
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Para uma resposta
transcultural em matéria de saúde mental autóctone Denise Noël
Este
artigo examina como a questão da intervenção clínica
junto aos autóctones é
colocada nos serviços de psiquiatria transculturais em Montreal. O Serviço
de Consulta Cultural do Hospital Judeu de Montreal, fundado pelo Dr. Kirmayer
e a Clínica de pedopsiquiatria transcultural do Hospital de Montreal para
Crianças criada pelo Dr. Rousseau são espaços de tratamento
ainda muito jovens. O mandato destes serviços é responder às
exigências da diversidade cultural em Montreal. O autor reflete sobre o
lugar e a resposta dada por estes dois serviços
à demanda de uma minoria que não é como as outras, os autóctones.
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Gravidez fora
do casamento nas famílias haitianas
Frantz Raphaël
A gravidez precoce nas jovens adolescentes
haitianas de Montreal leva a situações de crise que atingem várias
famílias, além de interessar e implicar intervenientes de várias
disciplinas. O assunto, abordado em um contexto transcultural, diz respeito ao
biculturalismo haitiano, tanto no Haiti quanto em terra estrangeira. Neste artigo,
o autor aborda particularmente a situação dos haitianos no contexto
quebequense. A análise da atitude dos pais dos dois grupos culturais,
ocidentalizado e crioulo, constitui uma luz mediadora nas relações
de ajuda ou de intervenção psicoterapêutica. Na comunidade
haitiana, os problemas de identidade cultural por um lado e a falta de integração
com a família, de outro, são a base dos conflitos entre pais e
filhos. O autor conclui com propostas que objetivam melhorar a eficácia
das intervenções nestas famílias em seu processo de adaptação
imigratória.
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Etnopsiquiatra
no Quebec: balanço e perspectivas de um importante testemunho ator Carlo Sterlin
Esta “entrevista” com C. Sterlin,
fundador da clínica transcultural do Hospital Jean-Talon (em Montreal)
determina, em uma perspectiva histórica, o desenvolvimento da abordagem
intercultural em clínica no Quebec, propõe uma classificação
clínico-política das abordagens interculturais em psiquiatria
e descreve o contexto no qual se desenvolveu o “Projeto Jean-Talon”.
Esta entrevista indica, além do fracasso deste projeto, como o Quebec — devido à sua
posição privilegiada — poderia contribuir para o desenvolvimento
futuro da etnopsiquiatria.
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Psiquiatria
médico-legal. Envergadura, responsabilidades éticas e conflito
de valores Julio Arboleda-Flórez, David N. Weisstub
Quando
uma especialidade sobrepõe vários sistemas, não se pode
tratar de ética sem discutir valores e regras de decisão que estão
na base de cada um destes sistemas. Através de suas múltiplas associações,
a psiquiatria médico-legal é
um arquétipo de tal especialidade; ela opera dentro de um conjunto de
valores que podem parecer antitéticos, ou mesmo irreconciliáveis
com respeito a outros aspectos da psiquiatria. A ação da psiquiatria
médico-legal tomou uma envergadura considerável, e seus especialistas
devem adotar outras visões do mundo e aplicar regras de decisão
que podem atingir os valores clássicos e as considerações éticas
da medicina (Weisstub, 1980). Depois de um breve histórico, os autores
passam em revista a extensão da ação da psiquiatria médico-legal,
vista como fundamento de sua definição. Os conceitos, temas e controvérsias,
com respeito à ética desta especialidade, são examinados à luz
das questões levantadas na prática atual.
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Continuação
no trabalho para pessoas que sofrem de uma doença mental Marc Corbière, Alain Lesage, Kathe Villeneuve, Céline Mercier
A
inserção no trabalho, para pessoas que sofrem de uma doença
mental, mostra-se complexa e difícil. Para as que trabalham, a continuação
no emprego é de curta duração. Este artigo visa identificar
determinantes pessoais da continuação no trabalho para pessoas
que sofrem de uma doença mental e inscritas em um programa de reinserção
no trabalho. Das 105 pessoas que trabalham, durante o acompanhamento de
nove meses após a inscrição em um programa, cerca de 50%
mantêm sua primeira atividade de trabalho. Os resultados de análises
de sobrevivência revelam que, segundo o indicador de continuação
no emprego observado (primeiro ou último emprego obtido), as variáveis
que aparecem como significativas podem estar ligadas aos aspectos sócio-demográficos
(auxílio financeiro recebido), ao trabalho (duração da ausência
no mercado de trabalho, tipo de emprego obtido), aos aspectos cognitivos (funções
executivas) e clínicos (sintomas paranóides). Concluindo,
os autores sugerem, não apenas considerar as variáveis inerentes à
pessoa que sofre de uma doença mental para predizer a continuação
no emprego, mas também avaliar, de maneira mais sistemática, seu
meio de trabalho.
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O impasse em
psicoterapia dinâmica ou pertinência dos paradoxos Wilfrid Reid
O autor refere-se aqui
ao adágio que diz que é melhor prevenir que remediar. Neste
contexto, ele descreve um certo número de armadilhas que são
inerentes ao processo de psicoterapia psicodinâmica. Para melhor
tentar evitá-las, estas armadilhas são apresentadas seguindo
o desenrolar cronológico da psicoterapia. Assim, o autor apresenta
um novo paradigma do método analítico, o paradigma da transicionalidade.
Esta reflexão pretende ressaltar o grande valor heurístico
do conceito de paradoxo.
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Criar contextos
de cooperação para sair de impasses terapêuticos Suzanne Lamarre
Este
artigo visa a: 1) descrever a gestão dos problemas de saúde mental
de acordo com dois modelos opostos e que se diferenciam em casos de tensões,
o modelo da cooperação e o modelo tradicional médico; 2)
ilustrar através de exemplos clínicos estas diferenças essenciais;
e 3) propor algumas reflexões sobre os obstáculos à cooperação
por causa das atitudes protecionistas do modelo tradicional médico, que
acentua-se durante as crises. Deter-se aos tratamentos das patologias ignorando
a natureza dos contextos relacionais, como pretende o modelo tradicional, pode
conduzir os atores a impasses terapêuticos cujo mais freqüente é o
da psiquiatrização. A autora propõe um modelo de intervenção
que ela chama de 4Rs para instalar um contexto de cooperação. Criar
contextos de cooperação para sair de impasses terapêuticos.
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A questão
do impasse terapêutico em clínica transcultural
Taïeb Ferradji, Laetitia Bouche-Florin, Kouakou Kouassi, Yoram Mouchenik, Félicia Heidenreich, Katherine Levy, A. Trepied, Salim Mehallel, Marie-Rose Moro
A
consulta transcultural do hospital Avicenne é freqüentemente um local
para onde convergem pacientes que têm percursos longos, dolorosos, carregados
de traumatismos e de rupturas e das equipes em dificuldade diante da complexidade
e do peso de certas situações. Transtorno e sentimento de impasse
são duplamente vivenciados com um risco acompanhado de errância
terapêutica, ou mesmo de incompreensão e de equívocos
quando não de rejeição. O dispositivo transcultural pela
mediatização da interação paciente-terapeuta permite
a elaboração de um meio-termo que preserva a posição
do terapeuta, estando, ao mesmo tempo, coerente com as representações
culturais do paciente
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