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Volumen XXXI, Número 1, primavera 2006 – Ética
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Apresentação

Jean-Claude Leclerc, Ética, um exame que pode ir longe p. 15

Dossiê : Ética

David Norman Weisstub, Julio Arboleda-Flórez, Os direitos em saúde mental no Canadá: uma perspectiva internacional p. 19
Pierre-Luc Bossé Paul Morin Nicole Dallaire, A deliberação ética: do estudo de caso à cidadania responsável p. 47
Louise Pepin, Trajetórias das pessoas no percurso analítico p. 65
Bernadette Colombel, Assumir um “saber” ao qual se tem acesso durante consultas em saúde mental: questões de uma ética p. 81
Camillo Zacchia, Jacques Tremblay, Ética clínica em psiquiatria: experiência do Hospital Douglas p. 95
Mario Poirier, Questões clínicas e éticas da supervisão externa das equipes em saúde mental p. 107

 

Mosaïques
Yasser Khazaal, Martin Preisig, Daniele Fabio Zullino, Psicoeducação e tratamentos cognitivos e comportamentais do transtorno bipolar p. 125
Marie-Claude Proulx, Francine Gratton, Processo acompanhado por assistentes em sua experiência junto a adolescentes suicidas: um estudo exploratório p. 145
Cynthia Mathieu, Claude Bélanger, Hélène Brisebois, Abandono da terapia de grupo por homens violentos com a esposa p. 169
Emmanuel Stip, Amir Ali Sepehry, Adrien Tempier, Annie Brochu-Blain, Diferenças e semelhanças da percepção da esquizofrenia entre os médicos generalistas e a população geral do Quebec p. 199

 

 

 

 

Os direitos em saúde mental no Canadá: uma perspectiva internacional
David Norman Weisstub, Julio Arboleda-Flórez

Este artigo examina o estatuto das pessoas que sofrem de transtornos mentais à luz dos instrumentos internacionais em matéria de direitos humanos e avalia se os direitos destas pessoas são respeitados no contexto canadense. Os autores acreditam que, apesar dos sistemas de países, como o Canadá, garantirem proteções civis e constitucionais significativas a seus cidadãos, incluindo os que sofrem de transtornos mentais, não é bem assim no capítulo do acesso aos serviços sociais. Os autores discutem a necessidade de corrigir esta lacuna. Finalmente, eles acreditam que é necessário observar de perto a aparente dissonância entre os direitos, internacionalmente reconhecidos, aos cuidados ade-quados e à proteção contra a discriminação, e sua aplicação limitada no contexto canadense.



A deliberação ética: do estudo de caso à cidadania responsável
Pierre-Luc Bossé, Paul Morin, Nicole Dallaire

Este artigo pretende dar uma contribuição reflexiva sobre o tema da ética aplicada que visa alimentar as práticas profissionais e inter-disciplinares. Os autores examinam a abordagem de deliberação ética que visa quatro finalidades principais, seja o desenvolvimento das com-pe-tências reflexivas e éticas dos profissionais, a elaboração, pelos pro-fissionais, de uma estrutura reflexiva “ética” que facilite a práxis pro-fissional, a orientação e a coordenação rápida da ação; a criação de uma estrutura de deliberação coletiva útil a fim de orientar as decisões difí-ceis e as ações futuras. Finalmente, o processo deliberativo também possui um objetivo de avaliação e se mostra pertinente nas aprendi-zagens que decorrem das experiências vivenciadas por cada um dos participantes.



Trajetórias das pessoas no percurso analítico
Louise Pepin

No percurso analítico, não necessariamente definido como composto de tratamentos concluídos, mas como recurso à análise, pelo menos a um analista no início, em um momento ou em outro do processo analítico, a pessoa é chamada a tomar uma posição ética. As questões não são evidentemente as mesmas no início do percurso, em um ponto decisivo ou ainda no final de um tratamento, ou seja, sua conclusão. Entretanto, a pessoa não pode evitar este confronto onde só ela mesma decide comprometer-se ou não na descoberta de seu incons¬ciente. Casos clínicos ilustrarão estes tempos de mudanças. Quanto ao analista, não cedendo ao seu desejo de saber, ele mantém a ética da psicanálise ficando do lado do destrinchamento da verdade e ele orienta seu ato para que a pessoa tenha acesso ao que o causa



Assumir um “saber” ao qual se tem acesso durante consultas em saúde mental: questões de uma ética
Bernadette Colombel

O tratamento psicanalítico testemunha que toda pessoa detém um “saber” sobre o que a constitui no plano psíquico. Fora do tratamento analítico, em um ou vários encontros terapêuticos em saúde mental, a pessoa que consulta poderá ter acesso a um saber “mínimo” sobre ela mesma? Apoiar-se nisso para orientar alguns aspectos de sua vida requer uma ética da responsabilidade para a pessoa que consulta. Conseguir revelar este saber demanda, da parte do clínico, um conceito do ser humano que leve em consideração as dimensões subjetivas da pessoa.



Ética clínica em psiquiatria: experiência do Hospital Douglas
Camillo Zacchia, Jacques Tremblay

Os autores apresentam uma breve visão geral da comissão de ética clínica do instituto universitário em saúde mental ao qual estão ligados, assim como a evolução de seu mandato durante as últimas décadas. Suas principais funções tratam sobre a consulta clínica, a influência exercida ao nível da formulação das políticas da instituição e a educação destinada aos funcionários e ao público em geral com respeito à ética e à saúde mental. A partir de exemplos e de questões debatidas dentro da comissão, os autores ilustram como essas funções estão interligadas. Os autores acreditam que o questionamento ético ajuda a rever as práticas clínicas e favorece, finalmente, melhores práticas na área da saúde mental.



Questões clínicas e éticas da supervisão externa das equipes em saúde mental
Mario Poirier

A supervisão externa de equipe inscreve-se cada vez mais nos dispositivos criados, tanto na rede pública quanto nos meios comu¬nitários, para ajudar a apoiar os interventores, a desenvolver suas habi¬lidades e a melhorar as práticas clínicas. Ela também tem um papel a desempenhar na análise das questões de ética na prevenção dos erros deontológicos. A supervisão de equipe comporta, entretanto, sua parte de desafios, principalmente, na consideração das dinâmicas de grupo e nos mecanismos a privilegiar para que ela possa ajustar-se bem às necessi¬dades e aos níveis dos interventores participantes. Finalmente, o supervisor deve, igualmente, levar em consideração suas próprias responsabilidades éticas face a seus supervisionados e face aos usuários dos serviços prestados.



Psicoeducação e tratamentos cognitivos e comportamentais do transtorno bipolar
Yasser Khazaal, Martin Preisig, Daniele Fabio Zullino

O transtorno bipolar é um transtorno do humor relativamente grave, caracterizado pela recorrência de episódios tímicos maníacos e depressivos. Apesar dos tratamentos estabilizadores de humor, uma parte importante dos pacientes sofre de recaídas tímicas, de sintomas intercríticos e de uma alteração do funcionamento socioprofissional. Além disto, alguns pacientes não aderem aos tratamentos propostos. Este artigo propõe uma revisão dos tratamentos psicoeducativos e cognitivo-comportamentais do transtorno bipolar (TCC). Método: Os estudos foram identificados através de uma pesquisa no banco de dados Medline que fez um recenseamento dos estudos publicados entre 1971 e 2005. Resultados: Os tratamentos psicoeducativos tendem a melhorar os conhecimentos sobre a doença, a adesão ao tratamento, a capacidade de fazer face aos pródromos dos episódios maníacos e a reduzir os riscos de recaída maníaca. Os TCC tendem a reduzir os sintomas depressivos, a melhorar a adesão aos tratamentos e a reduzir os riscos de recaída maníaca ou depressiva. TCC e tratamentos psicoeducativos dividem o mesmo modelo da doença. É, então, difícil separar claramente o impacto de uma ou outra intervenção. Finalmente, poucos estudos trataram de maneira específica os pacientes tendo uma má adesão aos estabiliza¬dores do humor. Seria importante desenvolver intervenções mais específicas neste campo. Conclusão: Os pacientes bipolares parecem se beneficiar das intervenções psicoeducativas e TCC complementando tratamentos farmacológicos usuais. Estudos posteriores que controlem principalmente os aspectos farmacológicos, o grau de adesão ao trata¬mento e a severidade do transtorno poderiam remediar as limitações das primeiras pesquisas.



Processo acompanhado por assistentes em sua experiência junto a adolescentes suicidas: um estudo exploratório
Marie-Claude Proulx, Francine Gratton

O objetivo deste estudo qualitativo, exploratório e retrospectivo é compreender o processo acompanhado por assistentes em sua experiência junto a um adolescente suicida. Entrevistas permitiram recolher dados junto a jovens que assumiram este papel. A proposta seguinte emergiu da análise pela teoria fundamentada nos dados: para os jovens, sua experiência foi percebida como uma missão heróica, primei¬ramente estimulante, depois confrontante e, finalmente, enri¬quecedora. Três etapas a confirmam. A primeira se inicia com o acesso ao estatuto de assistente e é animada pela atitude de entusiasmo do jovem que assume a missão de salvar um estudante suicida. A segunda, é marcada por uma certa desilusão depois de considerar os fatos asso¬ciados à missão e de ter se comprometido em um combate para “salvar” o estudante suicida. A última etapa, quando a missão é concluída, uma atitude de sabedoria ressalta quando o assistente faz a síntese de suas vitórias e de seus fracassos. A escassez das pesquisas sobre um assunto tão discutido incita a encomendar outros estudos.



Abandono da terapia de grupo por homens violentos com a esposa
Cynthia Mathieu, Claude Bélanger, Hélène Brisebois

Como se sabe, a taxa de atrito muito elevada nos homens que recebem um tratamento contra a violência conjugal constitui um sério problema. A presente pesquisa tenta verificar se existe uma relação entre as variáveis individuais (idade, renda, abuso de substâncias, ter sido testemunha ou vítima de violência na infância) e as variáveis relacio¬nadas com o casal (ajuste diádico, raiva, atribuições, estilo de vínculo, comportamentos violentos) e o abandono terapêutico destes homens. Foram recrutados 80 homens inscritos em uma terapia de grupo para homens violentos. Foram efetuadas análises correlacionais. Só a idade dos participantes revelou-se como estando relacionada à taxa de atrito. Quanto mais jovens eram os participantes, mais eles tinham tendência a abandonar a terapia antes do fim do programa. As impli¬cações destes resultados são discutidas no artigo.



Diferenças e semelhanças da percepção da esquizofrenia entre os médicos generalistas e a população geral do Quebec
Emmanuel Stip, Amir Ali Sepehry, Adrien Tempier, Annie Brochu-Blain

Neste artigo, os autores apresentam resultados a respeito da percepção e das atitudes dos médicos generalistas do Quebec com respeito aos pacientes que sofrem de esquizofrenia e comparam os dados obtidos com uma sondagem aos obtidos graças a cinco questões comuns enviadas à população quebequense em geral. Um curto questionário, composto de cinco itens escolhidos previamente a partir de um questionário mais abrangente e apresentado à população em geral, foi proposto aos médicos generalistas do Quebec. Estes itens sondavam a percepção e a atitude dos médicos com respeito à esquizofrenia. Pouco mais de mil médicos generalistas (1.003 - 46% mulheres e 54% homens) responderam a partir de uma amostragem aleatória. Dos 3.500 questionários enviados, a taxa de resposta foi de 29%. Os autores constataram diferenças importantes entre os médicos generalistas e a população quebequense em geral na tendência de querer oferecer ajuda às pessoas que sofrem de esquizofrenia (médicos generalistas: 58% versus população geral: 45%). Igualmente, uma porcentagem mais alta de médicos generalistas (72%) disseram sentir compaixão pelos pacientes que sofrem de esquizofrenia, versus 27% na população em geral. Os médicos generalistas disseram sentir-se menos à vontade para discutir abertamente sobre a doença a um membro da família, se este sofrer de esquizofrenia (26% versus 48%). Não havia diferença entre as duas populações com respeito ao julgamento da gravidade da esquizo¬frenia no campo das doenças, incluindo doenças mentais.